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Poema

A luva - Augusto dos Anjos

Para o Augusto Belmont
Pansa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso.
-- O pensamento é uma locomotiva --
Tem a grandeza duma força viva


A luva - Augusto dos Anjos - Poema

Para o Augusto Belmont
Pansa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso.
-- O pensamento é uma locomotiva --
Tem a grandeza duma força viva
Correndo sem cessar para o Progresso.
Que importa que, contra ele, horrendo e preto
O áspide bjeto do Pesar se mova!...
E só, no quadrilátero da alcova,

Vem-lhe à imaginação este soneto:
“A princípio escrevia simplesmente
Para entreter o espírito... Escrevia
Mais por impulso de idiossincrasia
Do que por uma propulsão consciente.
Entendi, depois disso, que devia,
Como Vulcano, sobre a forja ardente
Da Ilha de Lemnos, trabalhar contente,

Durante as vinte e quatro horas do dia!




Riam de mim, os monstros zombeteiros,
Trabalharei assim dias inteiros,
Sem ter uma alma só que me idolatre...
Tenha a sorte de Cícero proscrito
Ou morra embora, trágico e maldito,
Como Camões morrendo sobre um catre!”
Nisto, abre, em ânsias, a tumbal janela

E diz, olhando o céu que além se expande:
“-- A maldade do mundo é muito grande,
Mas meu orgulho ainda é maior do que ela!
Ruja a boca danada da profana
Coorte dos homens, com o seu grande grito,
Que meu orgulho do alto do Infinito
Suplantará a própria espécie humana!
Quebro montanhas e aos tufões resisto

Numa absoluta impassibilidade”,
E como um desafio à eternidade
Atira a luva para o próprio Cristo!




Chove. Sobre a cidade geme a chuva,
Batem-lhe os nervos, sacudindo-o todo,
E na suprema convulsão o doudo
Parece aos astros atirar a luva!

Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.

Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.



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