João da Cruz e Sousa - Broquéis - 11 - Regina Coeli





João da Cruz e Sousa - Broquéis - 11 - Regina Coeli


Ó Virgem branca, Estrela dos altares,

Ó Rosa pulcra dos Rosais polares!


Branca, do alvor das ambulas sagradas

E das níveas camélias regeladas.


Das brancuras de seda sem desmaios

E da lua de linho em nimbo e raios.


Regina Coeli das sidéreas flores,

Hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.


Ave de prata e azul, Ave dos astros...

Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...


Gôndola etérea de onde o Sonho emerge...

Água Lustral que o meu Pecado asperge.


Bandolim do luar, Campo de giesta,

Igreja matinal gorjeando em festa.


Aroma, Cor e Som das Ladainhas

De Maio e Vinha verde dentre as vinhas,


Dá-me através de cânticos, de rezas,

O Bem, que almas acerbas torna ilesas.


O Vinho douro, ideal, que purifica

das seivas juvenis a força rica.


Ah! faz surgir, que brote e que floresça

A Vinha douro e o vinho resplandeça.


Pela Graça imortal dos teus Reinados

Que a Vinha os frutos desabroche iriados.


Que frutos, flores essa Vinha brote

Do céu sob o estrelado chamalote.


Que a luxúria poreje de áureos cachos

E eu um vinho de sol beba aos riachos.


Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli,

Vinho é o clarão que teu Amor impele.


Que desabrocha ensangüentadas rosas

Dentro das naturezas luminosas.


Ó Regina do Mar! Coeli! Regina!

Ó Lâmpada das naves do Infinito!

Todo o Mistério azul desta Surdina

Vem d’estranhos Missais de um novo Rito!...



João da CRUZ E SOUSA (1861 - 1898) foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do movimento simbolista no Brasil. Seus poemas são marcados pela musicalidade e pelo sensualismo, mesclado com uma espiritualidade e religiosidade de maneira às vezes espantosa. Broquéis foi seu livro de estréia, e contém algumas de suas obras mais famosas, como o poema Antífona, peça de abertura do livro.




 João da Cruz e Sousa - Broquéis - 11 - Regina Coeli

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