João da Cruz e Sousa - Broquéis - 46 - Angelus...





João da Cruz e Sousa - Broquéis - 46 - Angelus...


Ah! lilazes de Ângelus harmoniosos,

Neblinas vesperais, crepusculares,

Guslas gementes, bandolins saudosos,

Plangências magoadíssimas dos ares...


Serenidades etereais d'incensos,

De salmos evangélicos, sagrados,

Saltérios, harpas dos Azuis imensos,

Névoas de céus espiritualizados.


Ângelus fluidos, de luar dormente,

Diafaneidades e melancolias...

Silêncio vago, bíblico, pungente

De todas as profundas liturgias.


É nas horas dos Ângelus, nas horas

Do claro-escuro emocional aéreo,

Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras

Ondulações e brumas do Mistério.


Surges, talvez, do fundo de umas eras

De doloroso e turvo labirinto,

Quando se esgota o vinho das Quimeras

E os venenos românticos do absinto.


Apareces por sonhos neblinantes

Com requintes de graça e nervosismos,

Fulgores flavos de festins flamantes,

Como a Estrela Polar dos Simbolismos.


Num enlevo supremo eu sinto, absorto,

Os teus maravilhosos e esquisitos

Tons siderais de um astro rubro e morto,

Apagado nos brilhos infinitos.


O teu perfil todo o meu ser esmalta

Numa auréola imortal de formosuras

E parece que rútilo ressalta

De góticos missais de iluminuras.


Ressalta com a dolência das Imagens,

Sem a forma vital, a forma viva,

Com os segredos da Lua nas paisagens

E a mesma palidez meditativa.


Nos êxtases dos místicos os braços

Abro, tentado de carnal beleza...

E cuido ver, na bruma dos espaços,

De mãos postas, a orar, Santa Teresa!...



João da CRUZ E SOUSA (1861 - 1898) foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do movimento simbolista no Brasil. Seus poemas são marcados pela musicalidade e pelo sensualismo, mesclado com uma espiritualidade e religiosidade de maneira às vezes espantosa. Broquéis foi seu livro de estréia, e contém algumas de suas obras mais famosas, como o poema Antífona, peça de abertura do livro.




 João da Cruz e Sousa - Broquéis - 46 - Angelus...

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