Castro Alves - Os Escravos - 08 - Adeus, meu canto




Castro Alves - Os Escravos - 08 - Adeus, meu canto


I


Adeus, meu canto! É a hora da partida...

O oceano do povo s'encapela.

Filho da tempestade, irmão do raio,

Lança teu grito ao vento da procela.

O inverno envolto em mantos de geada

Cresta a rosa de amor que além se erguera...


Ave de arribação, voa, anuncia

Da liberdade a santa primavera.

É preciso partir, aos horizontes

Mandar o grito errante da vedeta.

Ergue-te, ó luz! — estrela para o povo,

— Para os tiranos — lúgubre cometa.


Adeus, meu canto! Na revolta praça

Ruge o clarim tremendo da batalha.

Águia — talvez as asas te espedacem,

Bandeira — talvez rasgue-te a metralha.

Mas não importa a ti, que no banquete

O manto sibarita não trajaste —,


Que se louros não tens na altiva fronte

Também da orgia a coroa renegaste.

A ti que herdeiro duma raça livre

Tomaste o velho arnês e a cota d'armas;

E no ginete que escarvava os vales

A corneta esperaste dos alarmas.


É tempo agora pra quem sonha a glória

E a luta... e a luta, essa fatal fornalha,

Onde referve o bronze das estátuas,

Que a mão dos sec'los no futuro talha ...

Parte, pois, solta livre aos quatro ventos

A alma cheia das crenças do poeta!...


Ergue-te ó luz! — estrela para o povo,

Para os tiranos — lúgubre cometa.

Há muita virgem que ao prostíbulo impuro

A mão do algoz arrasta pela trança;

Muita cabeça d'ancião curvada,

Muito riso afogado de criança.


Dirás à virgem: — Minha irmã, espera:

Eu vejo ao longe a pomba do futuro.

— Meu pai, dirás ao velho, dá-me o fardo

Que atropela-te o passo mal seguro ...

A cada berço levarás a crença.

A cada campa levarás o pranto.


Nos berços nus, nas sepulturas rasas,

— Irmão do pobre — viverás, meu canto.

E pendido através de dois abismos,

Com os pés na terra e a fronte no infinito,

Traze a bênção de Deus ao cativeiro,

Levanta a Deus do cativeiro o grito!


II


Eu sei que ao longe na praça,

Ferve a onda popular,

Que às vezes é pelourinho,

Mas poucas vezes — altar.

Que zombam do bardo atento,

Curvo aos murmúrios do vento


Nas florestas do existir,

Que babam fel e ironia

Sobre o ovo da utopia

Que guarda a ave do porvir.

Eu sei que o ódio, o egoísmo,

A hipocrisia, a ambição,


Almas escuras de grutas,

Onde não desce um clarão,

Peitos surdos às conquistas,

Olhos fechados às vistas,

Vistas fechadas à luz,

Do poeta solitário


Lançam pedras ao calvário,

Lançam blasfêmias à cruz.

Eu sei que a raça impudente

Do escriba, do fariseu,

Que ao Cristo eleva o patíbulo,

A fogueira a Galileu,


É o fumo da chama vasta,

Sombra — que o século arrasta,

Negra, torcida, a seus pés;

Tronco enraizado no inferno,

Que se arqueia escuro, eterno,

Das idades através.


E eles dizem, reclinados

Nos festins de Baltasar:

"Que importuno é esse que canta

Lá no Eufrate a soluçar?

Prende aos ramos do salgueiro

A lira do cativeiro,


Profeta da maldição,

Ou cingindo a augusta fronte

Com as rosas d'Anacreonte

Canta o amor e a criação. . ."

Sim! cantar o campo, as selvas,

As tardes, a sombra, a luz;


Soltar su'alma com o bando

Das borboletas azuis;

Ouvir o vento que geme,

Sentir a folha que treme,

Como um seio que pulou,

Das matas entre os desvios,


Passar nos antros bravios

Por onde o jaguar passou;

É belo... E já quantas vezes

Não saudei a terra — o céu,

E o Universo — Bíblia imensa

Que Deus no espaço escreveu?

Que vezes nas cordilheiras,

Ao canto das cachoeiras,


Eu lancei minha canção,

Escutando as ventanias

Vagas, tristes profecias

Gemerem na escuridão?! ...

Já também amei as flores,

As mulheres, o arrebol,

E o sino que chora triste,

Ao morno calor do sol.


Ouvi saudoso a viola,

Que ao sertanejo consola,

Junto à fogueira do lar,

Amei a linda serrana,

Cantando a mole tirana,

Pelas noites de luar!

Da infância o tempo fugindo

Tudo mudou-se em redor.


Um dia passa em minha'alma

Das cidades o rumor.

Soa a idéia, soa o malho,

O ciclope do trabalho

Prepara o raio do sol.

Tem o povo — mar violento —

Por armas o pensamento,

A verdade por farol.


E o homem, vaga que nasce

No oceano popular,

Tem que impelir os espíritos,

Tem uma plaga a buscar

Oh! maldição ao poeta

Que foge — falso profeta —

Nos dias de provação!

Que mistura o tosco iambo


Com o tírio ditirambo

Nos poemas d'aflição! ...

"Trabalhar!" brada na sombra

A voz imensa, de Deus —

"Braços! voltai-vos pra terra,

Frontes voltai-vos pros céus!"

Poeta, sábio, selvagem,

Vós sois a santa equipagem


Da nau da civilização!

Marinheiro, — sobe aos mastros,

Piloto, — estuda nos astros,

Gajeiro, — olha a cerração!"

Uivava a negra tormenta

Na enxárcia, nos mastaréus.

Uivavam nos tombadilhos,

Gritos insontes de réus.


Vi a equipagem medrosa

Da morte à vaga horrorosa

Seu próprio irmão sacudir.

E bradei: — "Meu canto, voa,

Terra ao longe! terra à proa! ...

Vejo a terra do porvir!. . . "


III


Companheiro da noite mal dormida,

Que a mocidade vela sonhadora,

Primeira folha d'árvore da vida.

Estrela que anuncia a luz da aurora,

Da harpa do meu amor nota perdida,

Orvalho que do seio se evapora,

É tempo de partir... Voa, meu canto, —

Que tantas vezes orvalhei de pranto.


Tu foste a estrela vésper que alumia

Aos pastores d'Arcádia nos fraguedos!

Ave que no meu peito se aquecia

Ao murmúrio talvez dos meus segredos.

Mas hoje que sinistra ventania

Muge nas selvas, ruge nos rochedos,

Condor sem rumo, errante, que esvoaça,

Deixo-te entregue ao vento da desgraça.


Quero-te assim; na terra o teu fadário

É ser o irmão do escravo que trabalha,

É chorar junto à cruz do seu calvário,

É bramir do senhor na bacanália...

Se — vivo — seguirás o itinerário,

Mas, se — morto — rolares na mortalha,

Terás, selvagem filho da floresta,

Nos raios e trovões hinos de festa.


Quando a piedosa, errante caravana,

Se perde nos desertos, peregrina,

Buscando na cidade muçulmana,

Do sepulcro de Deus a vasta ruína,

Olha o sol que se esconde na savana

Pensa em Jerusalém, sempre divina,

Morre feliz, deixando sobre a estrada

O marco miliário duma ossada.


Assim, quando essa turba horripilante,

Hipócrita sem fé, bacante impura,

Possa curvar-te a fronte de gigante,

Possa quebrar-te as malhas da armadura,

Tu deixarás na liça o férreo guante

Que há de colher a geração futura...

Mas, não... crê no porvir, na mocidade,

Sol brilhante do céu da liberdade.


Canta, filho da luz da zona ardente,

Destes cerros soberbos, altanados!

Emboca a tuba lúgubre, estridente,

Em que aprendeste a rebramir teus brados.

Levanta das orgias — o presente,

Levanta dos sepulcros — o passado,

Voz de ferro! desperta as almas grandes

Do sul ao norte... do oceano aos Andes!!...


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



 Castro Alves - Os Escravos - 08 - Adeus, meu canto

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