Castro Alves - Os Escravos - 18 - Jesuítas e frades




Castro Alves - Os Escravos - 18 - Jesuítas e frades


Que o mundo antigo s'erga e lance a maldição

Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,

A hidra escura e vil da vil Teocracia,

O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...

Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,

Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,


Colombo a soluçar, a gemer Galileu...

De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...

Que a maldição vos lance a pena do Gaulês

Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...

Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.

É justo! . . .


A História cega, aquentando o estilete

Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,

Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,

Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...

Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,

Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo


Irá vos embalar do sepulcro no solo...

A América por vós reza de pólo a pólo!

Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,

Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...

A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,

O amor paternal, a castidade pura


Destes homens que vinham, envoltos no burel,

A derramar dos lábios o amor — divino mel,

O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,

E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...

Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano

Vos deve sepultar no verso soberano


— Pano negro que tem por lágrimas de prata

As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!

Se aqui houve cativos — eles os libertaram.

Se aqui houve selvagens — eles os educaram.

Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.

Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.


Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.

Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!

Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano

Vos deve amortalhar no verso soberano

— Pano negro que tem por lágrimas de prata

As lágrimas que a musa inspirada desata!...


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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