Castro Alves - Os Escravos - 20 - Manuela - cantiga do rancho




Castro Alves - Os Escravos - 20 - Manuela - cantiga do rancho


Companheiros! já na serra

Erra.

A tropa inteira a pastar...

Tropeiros! ... junto à candeia

Eia!

Soltemos nosso trovar ...

Té que as barras do Oriente

Rente

Saiam dos montes de lá...

Cada qual sua cantiga

Diga

Aos ecos do Sincorá.

No rancho as noites se escoam.

Voam,

Quando geme o trovador...

Ouvi, pois! que esta guitarra...

Narra

O meu romance de amor.


...........................................


Manuela era formosa

Rosa,

Rosa aberta no sertão...

Com seu torço adamascado

Dado

Ao sopro da viração.

Provocante, mas esquiva,

Viva

Como um doudo beija-flor...

Manuela - a moreninha

Tinha

Em cada peito um amor ...

Inda agora quando o vento

Lento

Traz-me saudades de então

Parece que a vejo ainda

Linda

Do fado no turbilhão

Vejo-lhe o pé resvalando

Brando

No fandango a delirar.

Inda ao som das castanholas

Rolas

Diante do meu olhar ...

Manuela... mesmo agora

Chora

Minh'alma Pensando em ti...

E na viola relembro

Lembro

Tiranas que então gemi.

"Manuela, Manuela

Bela

Como tu ninguém luziu...

Minha travessa morena,

Pena

Pena tem de quem te viu!...

Manuela... Eu não perjuro!

Juro

Pela luz dos olhos teus...

Morrer por ti Manuela

Bela,

Se esqueces os sonhos meus.

Por teus sombrios olhares


- Mares

Onde eu me afogo de amor...

Pelas tranças que desatas

- Matas

Cheias de aroma e frescor ...

Pelos peitos que entre rendas

Vendas

Com medo que os vão roubar...

Pela perna que no frio

Rio

Pude outro dia enxergar ...

Por tudo que tem a terra,

Serra,

Mato, rio, campo e céu...

Eu te juro, Manuela,

Bela

Que serei cativo teu ...

Tu bem sabes que Maria,


Fria

É pra outros, não pra mim...

Que morrem Lúcia, Joana

E Ana

Aos sons do meu bandolim ...

Mas tu és um passarinho

- Ninho

Fizeste no peito meu ...

Eu sou a boca - és o canto

Tanto

Que sem ti não canto eu.

Vamos pois A noite cresce

Desce

A lua a beijar a flor

À sombra dos arvoredos

Ledos

Os ventos choram de amor

Vamos pois ó moreninha

Minha

Minha esposa ali serás

Ao vale a relva tapiza

Pisa

Serão teus Paços-reais!

Por padre uma árvore vasta

Basta!

Por igreja - o azul do céu...

Serão as brancas estrelas

- Velas

Acesas pra o himeneu".

Assim nos tempos perdidos

Idos

Eu cantava mas em vão

Manuela, que me ouvia,

Ria,

Casta flor da solidão!

Companheiros! se inda agora

Chora

Minha viola a gemer,

É porque um dia... Escutai-me

Dai-me

Sim! dai-me antes que beber!. . .

É que um dia mas bebamos

Vamos

No copo afogue-se a dor!

Manuela, Manuela,

Bela,

Fez-se amante do senhor!


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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